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domingo, 7 de junho de 2015

BOSSA NOVA NORDESTINA


Estava assistindo recentemente meu companheiro de Martinica, Geraldinho Azevedo, juntamente com Amelinha, no Sarau de Chico Pinheiro. Eu curtia as músicas tranquilamente quando o compositor me surpreendeu com uma declaração insólita. Dizendo-se afeto à Bossa Nova, acabou por declarar que ela não havia nascido no Rio de Janeiro e sim no Vale do São Francisco porque, afinal, João Gilberto é de Juazeiro. Se a Bossa Nova tivesse, realmente, nascido no Nordeste, eu nada teria a reclamar porque, além de tudo, sou filho de nordestino, pois a família do meu pai é toda do Maranhão. Mas é preciso atentar para os fatos. A Bossa Nova é primeiramente composição, sendo a interpretação, departamento de João Gilberto posterior pois quem interpreta, interpreta alguma coisa. Apesar de ser o meu preferido, João Gilberto não é o primeiro e tão pouco o único intérprete, havendo antes dele e, também com ele, outros como a primeira intérprete, essa sim, a carioca Sylvia Telles seguida de Nara Leão, Claudete Soares, Leny Andrade, Alaide Costa, Pery Ribeiro e Os cariocas. Nara também é anterior, porque em 57, além de Sylvia Telles, participou do show da Sociedade Hebraica onde surgia por primeira vez a expressão Bossa Nova. Leve-se em conta, ainda, que os compositores de Bossa Nova da primeira geração, todos cariocas, eram também os primeiros intérpretes de sua própria música. Alguém há de comentar que a batida de samba do João seria a característica principal da Bossa Nova, sem levar em conta que a primeira gravação do João Gilberto foi Manhã de Carnaval, um samba-canção e entre as primeira gravações de Sylvia Telles está, entre outras, de 1955, Foi a noite, de Jobim e Mendonça, outro samba-canção o  que corrobora minha conclusão que Bossa Nova não é apenas samba, mas além de samba-canção é, também, marcha-rancho, marchinha, baião, toada, valsa, modinha, etc.....
Cabe apenas adicionar que, segundo a visão de Geraldinho, a música do mineiro João Bosco, por exemplo, teria nascido no Rio Grande do Sul, porque sua intérprete por excelência, Elis Regina, era gaúcha...


Carlos Lyra,  junho de 2015

segunda-feira, 18 de maio de 2015

REENCARNAÇÃO E OUTROS BARATOS

                                                


Nunca ouvi falar de alguém que em encarnações passadas tivesse sido  bosquímano australiano ou cachorro de mendigo. Todos foram Cleópatra, Napoleão ou Nefertiti. Mas asseguro que o que aconteceu comigo, na Espanha, não é invenção ou delírio meu. Estava fazendo shows em Madri e, entre meus músicos, contava com uma jovem flautista. Áurea Regina não bebia, não usava drogas e nem sequer fumava, mas era capaz de ser possuída por repentinas visões, das quais eu acabei fazendo parte. Tanto que certa noite, num papo regado de confidências íntimas, ela me fez uma revelação absolutamente insólita: "Cara, já por duas vezes nos meus baratos, vi você aqui nessas paradas, dentro de uma igreja e confessando uma mulher. Você usava uma túnica de monge e carregava, na cintura, uma espada. E tudo isso em outra época." Deduzi, pela descrição, no barato de Áurea, que eu encarnava um Cavaleiro Templário, coisa de que ela, aliás, não tinha a menor noção. Já em 1982, havia passado por outra experiência curiosa na Espanha. Estava entrando na cidade de Toledo por sinal, reduto dos templários, quando fui tomado de um desfalecimento súbito e suor frio inexplicáveis, que duraram uns cinco minutos seguidos. Sabia que tinha algo a ver com a cidade.

Voltando a meus shows de Madri, depois de um dos shows, apresentou-se-me uma loura madrilhenha, com a qual estabeleci um certo namoro. Fiquei, então, sabendo, que ela era funcionária de uma Sociedade Templária local. Não hesitei em contar-lhe sobre minhas conversas com Áurea e seus baratos. Ela, num clima de bruxa do bem, me garantiu que ia conversar com o Grão-Mestre Templário sobre a possibilidade desses fatos terem algum fundamento. Qual não foi a surpresa, quando num reencontro com minha bruxa, ela me confidenciou, estupefata: "Carlos, falei com o Grão-Mestre e ele me disse que és, realmente, a reencarnação de um Cavaleiro Templário e te manda isto" disse estendendo-me ,embrulhada em um lenço de seda, uma cruz cravejada, com duas hastes, que reconheci imediatamente como a Cruz de Caravaca, símbolo notório dos cavaleiros do Templo. Perguntei, desconfiado, quanto eu teria que pagar por aquilo, no que ela me contestou: "Não tens que pagar nada porque, segundo o Grão-Mestre, és um iniciado." Em tempo, diferentemente de um místico, que sofre toda a sorte de ações paranormais, o iniciado não sofre quaisquer ações, mas tem poder para operá-las. Nunca na vida, vi nada de confirmadamente sobrenatural nem, tão pouco, operei qualquer ação nesse estilo. Como marxista convicto, sou homem de pouca fé e muita esperança podendo considerar-me, no máximo, um materialista dialético de olho na bruxaria. No entanto guardo, até hoje e com muito carinho, o lindo sortilégio que é a Cruz de Caravaca.  
 
Maio de 2015


quarta-feira, 6 de maio de 2015

GOETHE E JOYCE


Há alguns anos, depois de ler o Dr. Fausto de Thomas Mann, me animei a ler uma tradução de O Fausto de Goethe. Encontrei a do português Antonio Feliciano de Castilho e li até o fim, por disciplina. Terminei me sentindo um pouco o “nascido ontem”, por ter tropeçado, várias vezes, numa difícil tradução portuguesa dos versos do poeta. Recentemente, na recém inaugurada Livraria Cultura do Fashion Mall, adquiri uma nova tradução, desta vez, por uma brasileira, Jenny Klabin Segall, viúva do pintor Lasar Segall. Devorei os dois volumes em menos de um mês, partindo imediatamente, para a releitura das minhas sublinhações. A tradução dos versos é primorosa e o grande achado, são as notas do professor paulista Marcus Vinicius Mazzari, que com tal, nos leva pela mão, através de uma das mais reconhecidas expressões da literatura: o esclarecimento dos mistérios históricos, mitológicos, mineralógicos e ocultistas, entre outros, que nos oferece o poeta através de sua tradutora e de seu comentarista é mais que gratificante. Está ao alcance de qualquer leitor que resolva meter-se com esse assunto. Só tive outra experiência semelhante quando, também, reli Ulisses de Joyce, desta vez tendo à mão o livro de Stuart Gilbert, que faz com o irlandês a mesma coisa que o Prof. Mazzari fez com Goethe. O mito de que Goethe e Joyce são ilegíveis termina, tanto com  a tradução de Jenny Klabin Segal quanto com os textos de seus comentaristas correspondentes, Marcus Vinicius Mazzari e Stuart Gilbert.
Maio de 2015

domingo, 26 de abril de 2015

IDIOMA: IDENTIDADE DE UM POVO



A moeda, a música, a comida, a religião, a nacionalidade e, sobretudo, o idioma, são formas da identidade de um povo. E no entanto os inconsequentes de sempre tentam neutralizar esses valores. Um inventa o Euro, a juventude transforma o rock  em música universal, O MacDonald internacionaliza o hamburger, o sovietismo hostiliza as religiões, o Globalismo busca um único governo mundial e assim por diante. No caso do idioma, Zamenhof, um médico russo-polonês tentou, no passado, criar uma língua universal, o Esperanto, mas a geração de três décadas atrás, com  bom senso e maior imunidade a lavagens cerebrais, rejeitou a idéia. A negligência da Educação, o esfacelamento da Cultura e as linguagens, cifrada da Internet e minimalista da Televisão, contribuem para a derrocada dos idiomas. No que diz respeito ao português, Camões e Machado de Assis saíram totalmente de moda.
Dante Alighieri no século XIII, com a Divina Comédia, “esforçou-se por inventar uma língua que pudesse ressuscitar as ideias mais profundas do pensamento humano” (sic).  Criou a língua italiana, que formulou a partir de mais de mil dialetos locais. Francesco Petrarca, seu seguidor, avançou na língua, criando o Soneto enquanto seu amigo Giovani Boccaccio escrevia uma série de contos conhecida como o Decameron. Geoffrey Chaucer, depois de assistir a uma conferência de Boccaccio sobre Dante, fez o mesmo que o conferencista, em inglês, escrevendo os Contos de Canterbury.  William Shakespeare aproveitou a forma de Soneto, inventada por Petrarca e a transpôs para o seu idioma. Foi Erasmo de Rotterdam quem, no século XVI, influenciou François Rabelais a fazer na França o mesmo que outros autores fizeram em suas línguas, escrevendo Gargantua e Pantaguel. E, para o espanhol, Miguel de Cervantes criou o Dom Quixote. Isso quer dizer, afinal que os idiomas - por serem identidade dos povos - é que criam as nações correspondentes.
C.L  abril de 2015

terça-feira, 14 de abril de 2015

ROMANTISMO E CLASSICISMO




Em arte existem duas escolas distintas: o Romantismo e o Classicismo. Os Românticos são subjetivos, sentimentais, expressivos, exuberantes e mais preocupados com o conteúdo do que com a forma. Os Clássicos são objetivos, racionais, medidos, pesados, contados e se preocupam mais com a forma que com o conteúdo. Todas as formas de arte se enquadram em uma ou outra escola. Ou nas duas. Na música os românticos seriam Beethoven, Lizt, Mendelson e Tchaikowsky, por exemplo.  Entre os clássicos contam-se Bach, Stravinsky e impressionistas como Ravel e Debussy.  Na pintura os românticos seriam abstratos como Van Gogh, o expressionista. Os clássicos são figurativos como os impressionistas Renoir, Monet, etc. Na poesia, a maioria dos parnasianos são românticos, como Olavo Bilac. Carlos Drummond e Fernando Pessoa são tipicamente clássicos. Na literatura, Dostoievsky e Balzac representam o romantismo enquanto que Gustave Flaubert, que rolava no chão em busca da palavra certa, não podia ser outra coisa senão um clássico. No jazz, contam-se entre os românticos: Charlie Parker, John Coltrane e Stan Getz e, entre os clássicos: Gerry Mulligan, Chet Baker, Stan Kenton e Modern Jazz Quartet. Na música popular americana, o compositor Irving Berlin e o cantor Bing Crosby são românticos enquanto que George Gershwin e Frank Sinatra são clássicos. Até na música popular brasileira de Escola de Samba encontra-se esta diferença, quando compositores como Cartola e Nelson Cavaquinho se revelam  românticos enquanto Zé Kéti é, definitivamente, um clássico. Mas também existem os que congregam as duas escolas numa só, Romântico-Clássica, como Villa Lobos, Rachmaninoff e Rodrigo, na música conhecida como erudita; na pintura Pablo Picasso;  na poesia Vinicius de Moraes, todos possuidores de um conteúdo romântico mas com forma clássica. Eu, pessoalmente me identifico mais com o Classicismo que com o Romantismo mas também, e muito, com aqueles  que misturam as duas escolas.
C.L. abril de 2015   

segunda-feira, 6 de abril de 2015

DIREITO VERSUS LIBERDADE



A discussão mais acalorada do momento é a do Direito de Privacidade versus Liberdade de Expressão. Os dois conceitos são igualmente relevantes e merecem, ambos, a mais atenta consideração. No entanto, qual teria prioridade quando esses dois conceitos se enfrentam? Essa parece ser a matéria em discussão. Pergunto-me, alias, qual a necessisade de discuti-la a não ser que se trate de abolir, arbitrariamente, leis e direitos inalienáveis já existentes. A verdade é que não vejo como o direito à privacidade possa ou deva ser ameaçado pela liberdade de expressão. A antiga afirmaçao de que a liberdade de um termina onde o direito de outro começa é gritante em minha mente e parece justificar, pelo bom senso, a escolha que faço entre as prioridades.  Uma outra afirmação muito em voga e, na minha opinião, um tanto falaciosa é a de que uma pessoa pública não tem direito à privacidade – o que, num futuro, não muito longínquo talvez, será permitido aos paparazzi  invadir a residência de uma pessoa, dita pública, fotografa-la à sua revelia e, quem sabe, mesmo em suas dependências sanitárias.  A coisa se complica quando chega no conflto entre o direito dos herdeiros e a  liberdade de expressão. Imagino o quanto esse direito se mostra incômodo à liberdade de expressão dos biógrafos e editores mas, ainda, segundo as leis vigentes, um herdeiro tem direito não só ao dinheiro e propridades de seus parentes como também à sua imagem assim como à faculdade de negociar qualquer desses itens à sua vontade. Porque, afinal, é  no direito de hereditariedade que se funda, há muitos séculos, desde o advento do Patriarcado, a sociedade à qual todos pertencemos.  

C.L. abril, 2015

sábado, 4 de abril de 2015

CRIAÇÃO DO HOMEM



O Criacionismo é uma forma de pensamento cristão que acredita piamente na criação do Universo, do homem e da humanidade segundo a Bíblia, com Paraíso, tentação de Eva, maçã,  pecado original, serpente, e tudo mais. Sempre fui um assíduo leitor da Bíblia, desde a segunda série ginasial do Colégio Santo Inácio, quando participava de debates sobre assuntos do Antigo e do Novo Testamentos. Num desses debates, entre as perguntas que lancei a meu contendor, estava esta: Que disse a serpente quando Adão e Eva foram expulsos do Paraiso?  Ante os olhares inquisitivos e perplexos de meu oponente assim como do padre, juiz do debate, esclareci, conclusivamente: Nada. Venci o debate.
No entanto, quando acumulado de dúvidas sobre o assunto da Criação, abordei padre Bertolo, diretor da segunda série, para fazer-lhe a seguinte pergunta: Padre, se Adão e Eva tiveram três filhos, Caim, Abel e Set, como surgiu o resto da humanidade?  O padre me respondeu prontamente: Não! Adão e Eva tiveram também muitas filhas! Continuei:  Então a humanidade descende de casamentos de irmãos com irmãs?  O padre explodiu: Menino cala a boca, você não entende nada disso! Argumento irrefutável.
Enfim, se uma pessoa acredita em Deus, porque não pode aceitar que a criação do homem se deva à Evolução das Espécies,  sugerida por Darwin e, se assim é, é porque Deus assim o quis. Eu, de minha parte, prefiro descender de alguma espécie de primata do que descender de um incesto entre irmãos.
C.L. março de 2015